Pensar numa cultura de respeito e valorização das mulheres quanto dos homens na sociedade brasileira é necessário, antes de tudo, mencionar as célebres palavras de Kant que assim diz:
“Todo ser humano tem um direito legítimo ao respeito aos seus semelhantes, e esta por sua vez, obrigado a respeitar todos os demais [...] Desprezar os outros, ou seja, negar-lhes o respeito devido aos seres humanos em geral, é em todas as situações contrário ao dever, uma vez que se tratam de seres humanos.” (KANT, Immanuel. Metafísica dos costumes (Doutrina dos elementos da ética § 38 e 39). Bauru: Edipro, 2003. p. 306-307.)
Pensando dessa maneira, seria mais fácil construir uma sociedade como um todo, igual para homens e mulheres, tornando a diferença uma peça fundamental na construção de uma cultura. Ao respeitar as diferenças, a sociedade aceitaria os valores distintos de todos, pois, a meu ver, não se pode falar em valores, sem antes falar em mulher ou em homem, tendo em vista que cada um transforma seus valores em cultura. Mas, a questão é como as pessoas estão agindo de forma preconceituosa e tendo atitudes discriminatórias em relação à diferença de gênero e acabam colocando como inútil, principalmente, a capacidade das mulheres.
No princípio, as mulheres só eram vistas, com certo louvor, prendadas, quando sabiam exercer as funções domésticas, com isso seus valores eram reconhecidos por meio de bons casamentos. Elas demonstrariam e aperfeiçoariam seus dotes na cozinha, no bordado e nos cuidados com a casa, com o marido e com a criação de filhos.
Pelas concepções cultuadas no princípio, ditando o modo de viver, de trabalhar da mulher, a sociedade contemporânea ainda não se adaptou a importância da mesma, vendo-a somente como uma pessoa gerada das costelas do homem com a finalidade de companheirismo, atenção e procriação. Isso se deve ao fato de que, ao pintar a mulher como um ser a ser definido como uma pessoa responsável por alguém ou alguma coisa, a sociedade não conseguiria vê-la em um campo de trabalho distinto daquilo que foi imaginado como certo.
Apesar disso, cada vez mais, as mulheres assumem um lugar na sociedade e no mercado de trabalho, mostrando sua capacidade de inteligência e independência. Essa evolução começou a partir do momento em que as mulheres conseguiram ter o direito de opinar e validar seu voto político. Com isso, a mulher teve a oportunidade de demonstrar sua opinião perante a democracia, a população e o mundo.
Conquistando seu espaço, a mulher comprova que tem capacidade o suficiente para exercer cargos que até então só eram ocupados por homens. O problema não está na capacidade da mulher, mas na forma que a sociedade, em geral, reluta em não aceitar pessoas, mulheres, em pé de igualdade com os homens. Pensando nisso, vale lembrar que Aristóteles afirmou que o cérebro do homem era três vezes maior que o da mulher, mas cientistas comprovaram que devido a preocupações, a responsabilidades e a extrema vontade de estar sempre se aperfeiçoando, o cérebro da mulher pode ser maior que o do homem. Esses questionamentos que fazem referência à desigualdade de gênero, a não aceitação da mulher como um ser a ser mais do que a pintaram, a ter capacidade o suficiente para ser digna de respeito infinito em qualquer campo de trabalho, é um tema crítico que deveria ser extirpado o mais rápido possível.
Por que ainda é pouco o índice de mulheres motoristas? Sendo que essas comprovam que são capazes de exercer a função com seriedade, compromisso, inteligência e, acima de tudo, competência? Seja de um contexto bíblico, científico ou filosófico, a mulher não foi criada apenas para ser algo a mais, se ela não fosse de grande importância não teria sido criada. Sua delicadeza, preocupação excessiva e intuição são o que a diferem do homem, não pensemos que isso é um ponto negativo. É a partir dessas diferenças, que elas, mulheres, fazem a diferença. Ratifico: a diferença é uma peça fundamental na construção de uma cultura que valorize tanto homens quanto mulheres.
É difícil pensar a respeito da discriminação contra a mulher, que ainda há lugares, campos de trabalho, que fecham as portas e não acreditam na sua competência. É mais difícil ainda procurar e não encontrar uma resposta que justifique o fato de as pessoas dividirem a capacidade em gêneros se todos fazem a diferença. Muitos, ao deparar com tais situações, não conseguem combatê-la, continuam vendo, assistindo de “camarote”, indignando-se, mas cruzam os braços à espera de alguém capaz de mudar tudo isso. Esperar alguém é diminuir o seu próprio valor.
A partir do momento que se estabeleceu este “estigma social”: “homem pode e dá conta de tudo” e “mulher serve para ser dona de casa”, obviamente pode-se concluir que essa tese não foi criada por uma ou duas pessoas, mas por meio de um conjunto de pessoas.
Dentro desse contexto, deparei-me com um pensamento de Platão que diz: “grandes caminhadas começam com a decisão do primeiro passo”. Apropriando dessa fala, ficaria mais fácil conseguir uma formação de ideias e opiniões diferentes do que temos, e é a partir do que pensamos sobre isso ou aquilo que agimos.
Nós precisamos de pessoas que não tenham medo de dar o primeiro passo; de pessoas que não mude o mundo, mas que reconstrua os valores do mundo; pessoas que não aceitem passivamente as imposições sociais; pessoas que tenham força o suficiente para refletir a cerca de questões que afetam a sociedade num todo e construir suas opiniões sem se preocupar com aquilo que nos foi dado como certo. Precisamos de políticos que pensem “a mulher”; precisamos, também, que mulheres atuantes, isto é, que tenham coragem de fazer parte de qualquer comissão, representatividade política, coragem de ser o sujeito do conhecimento científico nos meios acadêmicos; precisamos de Escolas que ensinem seus alunos a conviver com as diferenças, acreditando no potencial de cada um; precisamos de professores que ensinem seus alunos a ler, a escrever, mas, acima de tudo, a pensar o mundo, a lutar e que os estimulem na vontade de fazer a diferença; precisamos de homens e mulheres que cresçam com um pensamento de que nada vale mais que a nossa opinião, que a nossa vontade de simplesmente “ser”; precisamos de pessoas que aceitem as diferenças como elas são, acreditando que são exatamente elas que constroem o mundo. Precisamos conscientizar nossos jovens que cada um é parte da engrenagem que coopera no combate à discriminação e ao preconceito; precisamos, enfim, dar mais ênfase a esses temas, partindo da premissa que desde o momento em que as crianças entram na escola, é imprescindível ensiná-las a conviverem com as diferenças, respeitando o outro e exigindo para si mesmo respeito.
Sêneca diz que:“Muitas coisas não ousamos empreender por parecerem difíceis; entretanto, são difíceis porque não ousamos empreendê-las”. Lembremos, pois, que os valores da sociedade são construídos pelos homens, e somos possuidores e empreendedores desses valores; portanto, já que somos nós que construímos, desmistifiquemos a nossa incapacidade de ousadia na construção da igualdade de gêneros e por que não erguer um país digno e justo para todos, capaz de transformar as relações desiguais em igualitárias, o que significa, necessariamente, respeitar as diferenças.
Afinal, a importância do homem e da mulher não depende do gênero, pois todos nós, seres humanos, somos donos da história, da vida. Significa afirmar que a capacidade não está em ser homem ou mulher, mas na maneira como cada um toma atitudes para um mundo melhor, para a construção de relações igualitárias entre mulheres e homens.
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